Pesquise na coluna da esquerda informações sobre os textos aqui apresentados bem como outras publicações dos autores (blogs e livros).
O conteúdo deste blog é protegido pela Lei nº 9610/98 dos direitos autorais.

.
Mostrando postagens com marcador Atividade 5. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Atividade 5. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

No Quarto

Michelle Potapovas Conte 

Aquele cubículo escuro e abafado, banhado apenas pela luz laranja do abajur de pedra em cima de mesinha, a garota mais indefinível do mundo está a escrever e refletir, sobre a vida, os planetas, as profissões e principalmente, as dúvidas mais estranhas que alguém pode ter a respeito de nossa existência na Terra. Ajeita o lápis na mão novamente e continua a escrita lenta e pesada. E em meio a tantas cobranças e questionamentos, ela mais uma vez nessa semana se sente presa em seu próprio quarto, não apenas por ele ser minúsculo, mas por se sentir presa também a um corpo que não lhe corresponde. Ela deixa o caderno e o lápis sobre a cama onde estava sentada e levanta-se, abre a janela em busca de ajuda, para que um pouco de ar possa inundar aquele aperto dentro do quarto e dentro do peito. 

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Teia

Mariana Salomão Carrara

            Por um tempo uma aranha viveu num canto do teto do nosso quarto. Não era grande, mas também não era tão minúscula.
─ Vou matar, Rafa. Com um rodo.
─ Não, deixa aí um tempo, Lena. Ela vai comendo uns insetos.
Naquele dia eu tinha de novo sonhado que eu tinha um filho. Acordar desses sonhos sempre foi muito ruim. A vida linda que eu tenho de repente parece vazia, só porque em sonho eu tinha sentido alguma coisa tão poderosa que acordar no meio do meu quarto e constatar a completa inexistência da criança que eu amei tanto é arrebatadoramente frustrante.
Era domingo e eu voltei pra cama, já que não seria necessário buscar o rodo pra matar a aranha. O Rafael sentiu o meu humor e sumiu dali, foi se enfiar nos papéis dele, na sala. Fiquei olhando a aranha debaixo pra cima e me pareceu o bicho mais solitário do mundo. Eu tinha a apoteose da solidão instalada no meu quarto, em cima de mim.
Fiquei me imaginando com tantas pernas só para andar tão pouco, fazer da minha própria casa uma armadilha às minhas únicas visitas. Devorar em pedaços quem se aproxime de mim. Viver no canto desse quarto sem nada pra dizer, com tantos olhos sem nada que me interesse ver.
É capaz que ponham ovos, não sei, e que cuidem deles um dia, mas não essa. Não essa aranha sucateada nesse arremate de teto, tecendo compulsivamente sua cama em cima da umidade, bem no canto onde o sol nunca chega. Ela que vai ficar aí esquecida uns dias comendo mosquitos insossos até eu pegar o rodo.
Fiquei ali deitada muito tempo pensando em como não ser como ela. Calculei o que seria preciso evitar pra não perceber de repente que eu sou uma aranha imensa e amarga e peçonhenta sugando a energia de qualquer um que se aproxime de mim. O que eu teria de fazer pra nunca estar no canto mais úmido, escuro e escondido da minha vida, toda embaralhada, enforcada na minha própria linha.
─ Você não sai dessa cama, não, Lena? Vai ficar igual à aranha parada na teia. 

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Inverossímil

Tatiana Robles

Os lábios separaram-se, e aqueles olhos abriram-se e fitaram-me pela última vez. Eram de um azul tão intenso como o mar caribenho, em meio àquele deserto povoado por loucuras. Tão límpido que era possível ver toda a sua admirável profundeza. Numa onda tão alta e tão forte, arrebatou-me. Mas, tudo o que lá acontece, lá fica,  para depois ser dissolvido pelas suas inúmeras luzes. E, arrematando o cúmulo do inverossímil, transbordou por meu rosto uma chuva forte bastante para fazer florescer aquele solo árido e abençoar a sorte daquele improvável encontro diante da infinitude do tempo e do espaço.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Veritas

Daniel Frazão

Primeiro, é preciso sacar a rolha da garrafa, libertar o capeta que mora no conteúdo do recipiente e despejá-lo no interior da taça. No momento em que sorvo o mosto com o devido respeito, injeto uma dose de loucura nas minhas artérias e veias e substituo o antigo sangue careta por outro solerte que me inunda a alma.

Aos poucos, meu corpo perde a retidão de outrora e passa a se movimentar como um meneio. Meus braços começam a se escorar pelas paredes. Sigo me escorando entre os cantos chanfrados dos cômodos que vou redescobrindo na minha própria casa. Ao mesmo tempo, me sinto ainda mais vivo, como se este novo sangue fizesse com que minha alma se tornasse puramente instinto e abandonasse qualquer racionalidade.

Ao mesmo tempo em que bebo o vinho tinto, minhas narinas se apropriam do seu perfume e aquela sobreposição de odores acaba por se tornar também um vício. Sinto a delícia na superfície da língua, no céu da boca e vou me inebriando com esse cheiro sinuoso que até se parece com o balanço da mais bela dama.

Sinal fechado

Ivan Nery Cardoso

Com o freio de mão puxado, os motores rugem no sinal, ansiosos para correr, gritar, ranger; reflexo dos motoristas enclausurados, do dia quente, do rádio ligado, dos sovacos molhados. De dentro de um ônibus vermelho, a cabeça de um motorista espia para fora da janela o retrovisor lateral, enquadrando o rosto no reflexo: primeiro o lado direito, depois o esquerdo. Ajeita as sobrancehas grossas com o dedo médio e com um único mindinho alisa a superfície do nariz, analisa a textura da pele, como se à procura de evidências de um cravo ou uma espinha já espremidos. Coloca os óculos e se observa mais atentamente. Olha os dentes, tenta tirar algo com a língua, alisa os cabelos que crescem apenas nas laterais, começa a pentear para os lados os fios espessos do bigode com o polegar e o indicador, mas o ronco das motos e dos carros se acentua, anunciando a iminência do movimento,  do sinal que fica verde. Engata a primeira, abaixa o freio de mão e volta a desaparecer detrás de seu volante.

O Carro, O Telefone, Alessandra e Eu

Bea Elsborg

Senti o telefone vibrar no bolso esquerdo da calça. Enquanto segurava o volante com a mão direita e continuava acelerando, utilizei desajeitadamente a mão esquerda para passar embaixo do cinto de segurança e conseguir tirar o telefone do bolso da minha calça de sarja.

A escuridão da noite atingia o interior do meu carro. A penumbra se interrompeu quando apertei o botão do celular. Um olho no caminho e outro na tela do celular. Uma mão no volante e a outra no celular. Uma mensagem de Whatsapp atravessava a tela com os dizeres “Amor: Vê se hoje você não se atrasa (emoji de coração)”.  Meu coração deu um pulo, sorri, soltei o volante e mudei de marcha. O telefone continuava na mão esquerda que desajeitadamente procurava o bolso da calça. A voz de Alessandra do Waze ressonou no carro: “Em 500 metros, vire a direita”.

Um barulho seco ecoou no interior do automóvel. “Droga!” resmunguei. Deixei o telefone cair. Tirando a vista do caminho, tentei utilizar meu pé esquerdo para chutar o telefone até algum ponto onde conseguisse pegá-lo. O motor ronronava, mudei de marcha, e continuei. “Em 200 metros, vire a direita”

Senti o aparelho bater contra a porta. Continuei de olho no caminho, enquanto me abaixava para recuperá-lo. “Pronto!” Gritei enquanto segurava o telefone na mão esquerda. “Em 100 metros, vire a direita”. Justo no momento em que um carro vermelho se incorporava na minha faixa, tentei parar, volante à direita, buzinei. O som de pneus, buzinas e lâmina de auto se espalharam pela Marginal Pinheiros.

“Em 500 metros, vire a esquerda para retorno”.

“Droga! Vou me atrasar de novo” repeti para mim mesma. 

sábado, 3 de outubro de 2015

Criança perdida

Zulmira Carvalheiro

Manhã bem cedinho. Andando rápido pela Rua Direita.
Rápido rápido quase correndo na direção da Praça do Patriarca.
“Não posso perder o ônibus fretado. Não tenho dinheiro para táxi. Ônibus comum vai me atrasar. Sem chance. Tô na experiência, se atrasar já era.”
Depressa, mais depressa!
E lá ia quase correndo.
Cruzando o Largo da Misericórdia, uma mulher estacou alguns metros à sua frente. Virou-se, atarantada, olhou ao redor e gritou: “Pedro! Pedro!”
Dava pra perceber: era caso de criança perdida.
Não se via nenhuma criança por ali. Onde raios estaria o menino?
A mulher passou a gritar mais alto, em tom mais desesperado: “Pedro! Pedro!”
Mas que droga de mãe era aquela que não segurava a mão do filho ao andar pela Rua Direita?
E agora? Não podia parar, sob pena de perder o ônibus fretado.
Tanta gente na rua, alguém na certa ajudaria.
Apertou o passo a fim de compensar os segundos perdidos na hesitação.
Os gritos ficaram para trás. 
“Pedro! Pedro!”