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sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Fotógrafo na estação

Ivan Nery Cardoso

Mil e tantas cabeças,
mil e tantas camisas,
mil e tantas calças,
mil e tantos umbigos.
Dois mil e tantos olhos,
dois mil e tantos pés,
duas mil e tantas narinas,
duas mil e tantas mãos.
Sete mil e tantos botões,
dez mil e tantos dedos,
vinte mil e tantos se contarmos os
dois mil e tantos pés.
Setenta mil e tantas batidas por minuto.
Duzentos mil e tantos ossos.
Um milhão e tantos fios de cabelo.
Vinte e cinco trilhões e tantos neurônios.
E apenas uma cabeça, uma camisa,
uma calça, um umbigo,
dois olhos, dois pés,
duas narinas, duas mãos,
sete botões, vinte dedos,
setenta batidas por minuto,
duzentos ossos, mil fios de cabelo
e vinte e cinco bilhões de neurônios,
pararam para observar
essas mil e tantas vidas
que estão a passar.

domingo, 4 de outubro de 2015

Pressa

Michelle Potapovas Conte

Avisto a multidão marchando
Coração na boca, boca secando
Todos tão mecânicos...

Agora o ponteiro se anuncia
Suplicam pelo dia da alforria

Esquecem sua essência em algum lugar
Todos têm o mesmo sonho
Um dia deixar de vagar.

Imagem: Estação de Trem - Sebastião Salgado

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

There is no place like home/There is no place like hope

Tatiana Robles

Descortinado por um mastro de nuvens escuras
Surge o palco de misérias e amarguras
Onde são compelidos a permanecerem confinados
Os que pela ignorância humana foram exilados

Incerta vida... sobrevida
Daqueles que lutam para encontrar uma via
De sua identidade ser mantida
Mesmo vivendo à penumbra do que fora um dia

Campo seco, de tanta dor, rachado
Ainda que chova ou seja a lágrimas regado
E por cordões da intolerância limitado
E das fronteiras do egoísmo aproximado

Mas em claros raios como os da aurora
Vem a esperança o céu timidamente cruzando
E aos que continuam, em meio ao pesadelo, sonhando
Vai prenunciando o retorno à vida de outrora