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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Fim de Tarde

Alessandra Correa

Sem precisar olhar o relógio, percebi que o dia estava terminando. Logo o sol se poria, e chegaria a hora de os levar para casa. E a costumeira cena se daria: carregaria a pequena no colo, sonolenta, cabelos sob o rosto. Já Pedro, passaria pela porta correndo, cheio de areia e histórias, com uma energia que sempre me deixava surpreso. Quando estivesse lá dentro, me daria um tchau, gritado, quase esquecido. E então, eu voltaria para o carro. Sozinho.

Mas ainda tínhamos algum tempo. E assim, mascarei o que me apavorava e fiquei ali, sentado, apenas os observando brincar.
Eles não tinham pressa. Não pensavam no depois. Não se preocupavam. Apenas estavam ali. Correndo pela orla, empurrando um ao outro, molhando os pés na água gelada, acenando de vez em quando.

De onde estava, podia ouvir os gritinhos e risadas, misturados ao quebrar das ondas. Mas não conseguia enxergá-los claramente. Nem era preciso. Sabia que estavam com as faces coradas, olhos brilhando, coração leve. Naquele momento, isso era tudo o que eu tinha. Um fim de tarde. Tudo o que me bastava.

Cena de foco aberto

Mariana Salomão Carrara

Quando permito que os delírios dela provoquem sigilosos princípios de conjecturas em mim, fica a imagem absurda: eu com parafernálias de bebê, e um bebê, chegando de volta da maternidade ao apartamentinho avermelhado e infestado de poeira, figurinos, uísques e artistas – rapidamente substituídos e afastados por parentes cheios de autoridade –, um bebê ali parado embrulhado no meu braço, num dia totalmente irreversível como nenhum outro, o bebê reordenando as prioridades e subitamente transformando qualquer vocação ou arte em supérfluo, o bebê no braço pesando cada vez mais, até que não caiba no berço, nem caiba na minha vida, onde nunca de fato teria cabido, uma pessoa que eu teria posto no mundo e que pouco a pouco poderia fazer cada vez menos sentido. Alguém, na pior das hipóteses um homem, que nada tem a ver comigo e de quem eu não posso me separar jamais. Um outro homem que talvez por freudialidades revoltantes tenha se formado ao avesso de mim e se sente à minha mesa com a barba  impecável exercendo suas boçalidades tipicamente masculinas, repletas de uma heterossexualidade das mais triviais, apresentando mulheres conformadas e plácidas com quem o meu convívio começa a ser permanente. Circularia em casal pela minha sala exercendo sua jovialidade plástica, exibindo músculos que eu nunca tive, julgando-se ele próprio o retrato de uma nostalgia que eu terminantemente não teria. Tentativas inócuas de me magoar com a minha velhice enquanto na verdade me enoja com a sua juventude de banalidades, escancarando ao mundo que não pode haver nada de especial em mim se o que eu pude gerar é um cuspe amorfo da mediocridade, ele ali feito um espelho eterno que eu passaria a vida tentando negar. 

sábado, 10 de outubro de 2015

Espera

Zulmira Carvalheiro

Parado aqui na porta do meu rancho, fitando a imensidão do céu, tenho visto o mundo se transformar. 
Sentei nesta soleira há muito tempo e nunca mais levantei. A não ser uma vez, quando peguei doença e me carregaram para dentro. Mas depois voltei e aqui estou como sempre, espiando a estradinha de terra.
Enquanto isso, o sol nasce, o sol se põe, e tudo vai mudando. 
Os morros eram verdes de tanta árvore. Aí derrubaram tudo. O verde sumiu. Só se via a terra e a poeira que o vento esparramava. 
O tempo passou, a terra verdejou outra vez. Mas não é como antes, só cresceu mato rasteiro. 
O riacho também modificou. A água, de clarinha que era, escureceu.  Agora nem enxergo mais a correnteza, deve ter secado tudo.
Quando os morros eram verdes e as águas eram claras, tinha bastante gente morando por aqui. Disso me recordo bem. 
Então veio aquele dia. Cheguei do eito e estranhei a porta aberta. Tudo escuro lá dentro. Saí procurando ela, mas ela não estava em lugar nenhum. Me disseram que tinha ido embora de manhã cedo, carregando a mala. Enveredou pela estradinha e desapareceu sem falar com ninguém.
Duvidei, fui pra casa e encontrei o guarda-roupa vazio. Era verdade, ela tinha fugido. O motivo, levou junto com ela.  
Vim aqui e sentei na soleira, esperando ela voltar. 
As pessoas chegavam e me diziam pra entrar pra dentro, que estava de noite, fazia frio e eu ia perder a pouca saúde que tinha. Me traziam comida, sentavam do meu lado e me obrigavam a comer pelo menos um pouco. Até cobertor arrumavam pra me cobrir, porque entrar eu não entrava. 
Aí fiquei doente. Eles me pegaram e me puseram na cama.
Esqueci o que aconteceu. Só sei que voltei pra cá e ninguém tornou a falar comigo. Passavam reto na estrada sem virar a cabeça nesta direção. 
Não fiz conta, prefiro estar sozinho. Acostumei. Nunca mais senti frio nem fome nem sede.
Sumiu o arvoredo dos morros, o riacho secou, e todo o povo foi pra longe. 
Só restou eu aqui, sem outra labuta além de olhar o sol nascer e o sol morrer.
Um dia, quando ela apontar na curva logo ali depois da cerca, vai me ver neste mesmo lugar, esperando. 
Vai ficar bem contente, que eu sei. E vai apertar o passo, com vontade de me abraçar.